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Aflição e o Futuro da Horta

Estou aflito. Quis muitas vezes no inicio dessa semana destruir a pequena horta que já possui ramos de cebolinha, rúcula e  alface, ao qual eu espero nascer. E a cebolinha está crescendo, mas ela sabe que todos que acompanham o seu crescimento evitam dizer que um dia é provável que eu a coma. Eu sei que ela cresce em lugar que não deveria, e que não pertence a mim, e sim a terra… é a vitoriosa…

Sabe quando voce está com a garganta travada, e de quebra não consegue formular os pensamentos para se expressar? Fica gagejando, se perdendo no meio das palavras? Isso não acontece sempre comigo, mas as vezes aparece. Geralmente aparece em momentos difíceis, de tensão extrema, pressão. Fica difícil exercer qualquer tipo de comunicação com as pessoas a sua volta. Voce tenta ficar em um ambiente isolado, se distraindo com algo, mas quando percebe já está pensando naquilo que o deixa aflito. Não se pode adiar o futuro para sempre, certas decisões exigem maturidade, perseverança e coragem. Mas e quando a pessoa que te serve de guia no seu pequeno mundo anda no sentido contrário a essas afirmações? Quando ela vai de encontro a interesses que fogem do seu contexto, da sua linha de raciocínio, o que se deve fazer?! Seria este o momento correto para se desligar daquilo que para voce soa como um cordão umbilical?

 

E essa tal de aflição, ambivalente, tão forte e consumista de nós, que nem nos deixa concluir se é bom ou ruim senti-la. Tem quem não concorde, mas a aflição é o remédio para a estagnação. Deixa-nos um motivo para querer ser mais felizes ou apenas felizes. Mas o preço é alto. Aflição é a sensação de que algo  “não está certo”. No fundo, é o que nos move e motiva para aquela certeza de que aquele “sopro” de mudanças na situação atual são sim possíveis e desejáveis. Aflição é a força que nos impede de estar sempre submissos e conformados.

E é também um dos principais motivos por que é tão difícil reconhecer o que é “bom” ou “mau” em situações concretas. Pois por si só, a aflição é um tormento – e no entanto, acontece com freqüência de ser “ouvindo” esse tormento e agindo de acordo com ele que se alcança as verdadeiras soluções, ou se ferra de vez.

Essa agonia é sempre uma agressão, uma violência. E como toda agressão, tem o propósito de provocar tranqüilidade. Aflição nada mais é do que a vontade de resolver o conflito entre o mundo como ele existe e o mundo como desejamos que ele fosse. Tentar reprimi-la não adianta, e de fato complica a situação, pois só ajuda a tornar mais clara e presente a existência desse conflito.

Aflição se vive, se sublima ou se atende, mas não se pode “vencê-la”. Oh, não. Não faz sentido algum querer vencer uma aflição. Podemos tentar conviver bem com ela, mas essa é uma estratégia muito sofrida. No fundo não é mais do que um medo masoquista de viver mudanças. Ou podemos em vez disso abraçar a aflição, resolvê-la, aceitar o desafio que ela nos traz com o coração aberto; por último, também é possível que em algum momento percebamos que não temos os meios de resolvê-la nem no presente nem no futuro, a não ser que façamos dessa aflição parte de nós, que nos deixemos marcar de forma permanente por ela.

Aos interessados, a horta ainda está intacta e no mesmo lugar…

Musica de produção: The dead Texan – A Chronicle Of Early Failures Part 1

Link( http://www.youtube.com/watch?v=tc15IpNsH08 )